Uma aventura pela Bolívia cruzando 3 fronteiras

Em abril de 2016, resolvemos que faríamos uma viagem ao tão sonhado Salar de Uyuni na Bolívia!! Após decidido o destino, a próxima decisão seria: Seguir para o Atacama ou continuar na Bolívia pelos próximos dias? Temos muita vontade de conhecer o Atacama e realmente preciso ir pra lá agora, mas nós queríamos a oportunidade para verdadeiramente conhecer a Bolívia e assim foi… E posso dizer? Foi incrível!! Ninguém imaginaria tudo que a Bolívia tem pra oferecer, pensando-se que é o país mais pobre da América do Sul, mas ele é cheio de riquezas culturais e naturais e eu fiquei verdadeiramente impressionada com a quantidade de turistas europeus lá, muito mais do que sou acostumada a ver no Brasil.

O Guinho queria muito ir naquele “Trem da Morte”, que na verdade chama Trem do Oriente, não se sabe ao certo o porquê desse apelido mas parece que muitos trabalhadores morreram durante a construção da estrada de ferro por Malária. Bom, originalmente esse trem saía de São Paulo na estação da Luz e ia até Santa Cruz de la Sierra mas agora ele só funciona no trecho boliviano. O plano então era ir de avião de São Paulo a Campo Grande, de lá pegar um ônibus para Corumbá, dormir lá, atravessar a fronteira pela manhã para Puerto Quijaro e pegar o trem as 11h com direção à Santa Cruz. Ótimo planejamento, certo? Errado… Na época o Guinho ainda morava em Londres e precisava vir de lá pra São Paulo, ele chegaria as 6h em GRU e nosso vôo para Campo Grande seria às 14h…. mas devido a uma super nevasca em algum lugar da Europa, o avião não chegou no local de conexão dele e ele só chegou no Brasil às 13h30. Então o que acabou acontecendo foi um tanto quando engraçado. Eu fui no vôo originalmente planejado e ele pegou um vôo somente às 16h. Quando cheguei na rodoviária de Campo Grande vi que quase não tinham mais lugares para o horário que ele chegaria e se ele não pegasse o último ônibus, ele perderia o trem. Tentei ao máximo jogar um charme no cara da bilheteria pra já deixar a passagem dele paga e ele entregava o bilhete depois mas não consegui (percebi que tinha que treinar mais o chame), então tudo que pude fazer foi rezar pra ele conseguir o ônibus da meia noite… o qual ele perdeu… Por sorte colocaram um extra as 2h (O Guinho já estava viajando há mais de 24h seguidas). No dia seguinte em Corumbá eu torcia pra ele chegar antes das 9h, que foi o horário que marquei com o taxi para atravessarmos a fronteira e….. ele chegou!!! Coisa de 10 minutos antes só, mas conseguimos com sucesso atravessar a fronteira e pegar o trem às 11h. Dizem que uma viagem na América do Sul não é completa sem alguns perrengues né, então já tínhamos começado bem rs

Bom, dali pra frente até que foi tranquilo… Eram só 16h no trem rs. Mas foi bem legal. O trem é simples mas confortável, serve uma comida ok para os padrões bolivianos e as músicas foram as melhores, mas só no começo – eles tinham um único DVD que tocou pelas 16h – sério já estava a ponto de desligar a TV sozinha rs.

Chegamos em Santa Cruz de la Sierra por volta das 7h e agora tínhamos que comprar passagens pra Uyuni. Sabíamos que os ônibus só sairiam por volta das 17h, mas o que não sabíamos é que as cias só abriam suas bilheterias a partir das 9h… então foram mais duas horas sentados na mochila na rodoviária esperando a boa vontade deles. Enquanto isso os bolivianos gritam a plenos pulmões os destinos a fim de angariar clientes. Eu me perguntei se realmente a gritaria era uma boa estratégia de marketing, mas parece que funciona por lá. De qualquer forma, deu 9h30 e a cia ainda não tinha aberto, cansamos de esperar e acabamos comprando passagens para Potosí e de lá compraríamos para Uyuni, guiados, lógico, pelas pessoas gritando “POTOSÍ, POTOSÍ, POTOSÍ” rs.

Fomos então passear por Santa Cruz. Nosso primeiro dia lá foi bem legal, achamos uma cidade organizada e bonitinha, mas me parecia um pouco antiga, todos os ônibus e carros muito velhos, era quase como se tivesse nos anos 90 de novo. Mas o mais interessante sobre Santa Cruz foi que a achamos só legalzinha nesse dia, mas passamos por lá de novo por mais um dia antes de voltar pro Brasil e, depois de passarmos por quase toda a Bolívia, Santa Cruz passou a ser uma cidade mega avançada e moderna! Foi legal ver como nossa percepção mudou!

No fim da tarde então voltamos para a rodoviária pra pegar o ônibus para Potosí e aqui alguns fatos são importantes – Estava um calor de mais de 30°c em Santa Cruz, eu já havia iniciado a comer folhas de coca e por causa do calor tinha bebido fácil uns dois litros de água naquela tarde – posto esses fatos, ainda indico que essa viagem duraria 24h no total e que o ônibus não tinha banheiro… sim não tinha banheiro. Quando entrei no ônibus e o motorista avisou que a primeira parada seria dali a 4h, eu senti vontade de fazer xixi imediatamente e realmente as próximas 4h foram literalmente uma tortura pra mim! Quando chegamos na primeira parada, corri pro banheiro achando que todos meus problemas tinham se resolvido, mas não… o banheiro não tinha descarga nem água nem nada rs. Você tinha que encher seu baldinho pra servir de descarga e depois lavar a mão em outro baldinho! DICA IMPORTANTE: Levem álcool gel pra uma viagem na Bolívia, salvou minha vida!

Detalhe é que esse banheiro era de luxo perto do da segunda parada, o qual simplesmente era o chão rs. O ônibus parou e o pessoal fazia xixi ali mesmo no chão e todas as moças bolivianas sem nenhuma vergonha agachadinhas lá com as suas saias escondendo tudo. Nesse eu não fui, lógico, e o ônibus tinha um cheiro bem agradável depois dessa parada rs

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Bom, além disso, vamos pensar que Santa Cruz está a 400m acima do nível do mar e Uyuni à quase 3900m, portanto em 24h subiríamos 3500m, ok né? Não… a estrada inteira era cheia de abismos, sendo sempre uma pista única e os motoristas lá são loucos. Sério, achava que ia morrer a cada ultrapassagem do ônibus e cada vez que olhava pela janela. Só não mandei mensagem pra minha mãe dizendo que a amava porque não tinha internet rs.

Pegando no sono durante a viagem

Quando eu achei que já tinha tido perrengues o suficiente, o ônibus para por volta das 7h em Sucre, achei que era só mais uma parada normal, só que ficamos lá mais de 30 minutos e nada acontecia… Descemos e ninguém nos dava explicação e assim foi por quase 2h. Quando descobrimos que, devido a uma greve, as pessoas tinham fechado todas as entradas da cidade. Não sabíamos quanto tempo levaríamos lá, então nos juntamos com um alemão, atravessamos a fronteira de pessoas a pé e pegamos um táxi até o outro lado da cidade. Lá, tivemos que atravessar a outra fronteira de pessoas a pé e então pegar outro táxi até Potosí. Não ficou tão caro e conseguimos chegar a ponto de pegar o ônibus das 11h pra Uyuni. Algo que se aprende na Bolívia… Tudo é negociável, até a passagem de ônibus, então foi fácil pra nós barganhar o táxi.  Chegamos finalmente em Uyuni por volta das 17h e sairíamos no dia seguinte para o passeio do Salar… onde tive mais perrengues, só pra constar haha, mas se quiser saber desse passeio, que acho que foi o melhor que já fiz em toda minha vida, apesar das dificuldades… só clicar aqui!

Voltando pra Uyuni dali dois dias, pegamos outro ônibus agora com direção a La Paz, novamente fomos em esquema low cost haha e não pegamos o famoso ônibus da Todo Turismo que tem mais conforto, e fomos em um intermediário. Mas essa viagem, ainda bem, foi tranquila e sem surpresas. Chegamos em La Paz às 6h e seguimos direto pro Hostel, o Wild Rover. Super recomendamos!! Tem uma estrutura melhor que alguns hosteis da Europa. Ele é famoso pelas festas e tem muita gente nova e achei que isso ia me incomodar um pouco (vamos combinar que tenho alma de uma senhora de 60 anos) mas foi bem tranquilo, íamos para o bar pra jantar, tomar nossa cerveja e saíamos antes de virar balada e os bartenders subirem no balcão pra tirar a camisa, sim era isso que acontecia depois das 22h! Pense bem se você gosta de trabalhar em hosteis, precisa ter uma barriga tanquinho pra trabalhar nesse aí!

Em La Paz, os perrengues finalmente acabaram rs, tirando lógico a altura, à qual eu ainda não tinha me acostumado 100% e ainda era difícil andar 100m sem ter que parar pra dar uma respiradinha. Mas sério, La Paz é Linda, diferente linda, não o tipo de beleza que estamos acostumados. É uma cidade dentro de um buraco, então quando estamos no centro parece que a cidade é coberta de favelas nos morros, mas não, a periferia está no plano e La Paz que está para baixo. Por isso, o meio de transporte mais comum lá são os teleféricos, e sério vale a pena ir para El Alto (a cidade periférica que fica logo acima) de teleférico, a vista é linda. E de toda a cidade é possível ver o Illimani, uma das montanhas da cordilheira.

          

 

            

Outra impressão interessante, a cidade, bem como todo o país,  é efetivamente pobre, mas não se vê tanta diferença social como vemos no Brasil, onde se tem a favela do lado de prédios e casas caríssimas. Lá tudo é no mesmo padrão, todas as casas são de cor marrom esverdeada, por serem feitas com rocha vulcânica e ninguém pinta. Todos usando o mesmo tipo de roupa, comendo o mesmo tipo de comida e tendo o mesmo aparelho de celular sem whatsapp, então sinceramente me parecia muito mais rico do que aqui. Além disso, me senti mais segura lá do que me sinto em São Paulo.

Nos nossos 3 dias em La Paz fomos para as ruínas te Tiwanaku, bem pertinho do Titicaca, que eu não recomendo, está super descuidado e sem placas e nem explicações. Passeamos um dia pela cidade, indo à uma feira local, fazendo algumas amizades e passeando pelos mercados, igrejas e museus que a cidade oferece – Amei! Sempre que posso, gosto de andar à toa pelas cidades a fim de tentar me misturar com os locais. E no último dia, fizemos um bate e volta para Copacabana, no Lago Titicaca, o que eu também não recomendo. Passem pelo menos dois dias lá! Copacabana é linda demais! Só rapidinho vou contar a historia. Ali era uma cidade inca, tanto que dali saem os barcos para a Isla del Sol e de la Luna, onde os incas faziam as oferendas para os seus deuses, o nome inclusive deriva de kota kahuana, que significa vista do lago em aymara, um dos dialetos. Mas quando os espanhóis católicos chegaram e viram que era uma cidade com muita religião, logo surgiu a história de que Nossa Senhora tinha sido vista ali, e uma escultura dela foi feita e então a igreja de Nossa Senhora de Copacabana foi construída. Hoje, é uma cidade de peregrinação de importância católica. Na páscoa, os bolivianos vão lá fazer o calvário, uma subida com 12 cruzes pelo caminho. Subimos nele e a vista vale todo o esforço, mesmo a uma altitude de 3900m eu subi (que orgulho rs).

   


              

No dia seguinte voamos de volta pra Santa Cruz pra um último dia e de lá pegamos o voo da Gol que faz esse trajeto Santa Cruz de la Sierra – São Paulo. Foi o melhor voo, viajar com vista pras cordilheiras é algo que vou levar na memória pra sempre.

             

Essa foi uma viagem difícil e cheia de surpresas e sustos, mas sem brincadeira, até hoje foi minha melhor experiência de viagem. Pra mim pelo menos, viajar é muito mais do que conhecer novos lugares, mas conhecer novas culturas, aprender um pouco de como é a vida ai fora, estourar um pouco da bolha em que vivo diariamente e me tornar mais grata e foi exatamente isso que essa viagem fez em mim, por isso a considero como um presente acima de tudo.

E vocês? Gostaram? Encaram essa aventura?

 

 

 

 

 

16 thoughts on “Uma aventura pela Bolívia cruzando 3 fronteiras

  • June 3, 2017 at 4:04 am
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    Achei bastante curiosa a percepção alterada de vocês de Santa Cruz. Gostei bastante das fotos, deu vontade de visitar tudo, mesmo com os perrengues básicos 😊 Muito bom o post!

  • June 4, 2017 at 7:18 pm
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    Muito legal!! A Bolívia é linda né, pena ser um país tão pobre! Só conheci a parte do deserto, mas pretendo conhecer os outros lugares, e seu post deu mais vontade ainda!! rs

  • June 5, 2017 at 8:03 pm
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    Gente do céu, quanto perrengue e confusão numa viagem só!! Kkkkk Mas ainda bem que vocês conseguiram aproveitar a viagem!!

  • June 5, 2017 at 8:10 pm
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    Olha… na verdade eu gostei pra caramba da sua postagem, mas não se encararia..rs.. acho que desceria no meio do nado ao ver esses abismos.. tenho um medo estranho..rs Mas tirando isso, acho super válido conhecer lugares e culturas diferentes… melhoramos muito como pessoas, não é?

  • June 6, 2017 at 12:36 am
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    Quantas aventuras hein? Mas que legal… Viajar é isso, me identifiquei quando diz que as viagens mudam nossa forma de ver o mundo e nos faz pessoas mais gratas, voltei da India recente, e esse foi o sentimento. Parabens pelo post, abraço

  • June 6, 2017 at 1:14 am
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    Gostei demais do relato deu uma coragem de conhecer. Temos realmente um preconceito com a Bolívia. Se sentiu mais segura que em SP então dá pra encarar. Amo nossa América do Sul!

  • June 7, 2017 at 4:11 pm
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    Essa viagem com certeza foi transformadora e cheia de aventuras. Conhecer culturas diferentes nos enriquece e nos faz pessoas melhores. Por isso amo viajar!

  • June 7, 2017 at 6:42 pm
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    Gente do céu, a viagem de vocês já foi animada desde o começo!! Quanta emoção pra atravessarem a fronteira! Ainda bem que deu certo, a Bolívia é muito interessante mesmo!

  • June 7, 2017 at 8:20 pm
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    Caracas 16 horas de trem hein ?? .. mas acho que deve ser bem legal, ainda não fiz uma viagem assim longa de trem. . Quanto perrengue vixx… mas é daí que saem as melhores histórias né?rs… Adorei ler a matéria… ótimo post bjss

  • June 7, 2017 at 10:18 pm
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    Amei esse post, e adorei essa dica de ir de trem que vista que tem , eu fui a Uyuni, mas voltei de lá para São Pedro do atacama e acabei por não conhecer nada na Bolívia, mas na próxima vou seguir as dicas de vocês!!!

  • June 8, 2017 at 12:55 am
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    Que aventura!! Do começo ao fim! Rsrs acho que as viagens ficam melhores com muitas historias assim pra contar!
    Quero muito conhecer a Bolívia, quem sabe de uma esticada do Atacama!!

  • June 8, 2017 at 1:37 am
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    Nossa, amei o roteiro, mas cansei só de ler esse tanto de perrengue de ônibus… Nossa, essa do banheiro no chão é mais comum do que imaginávamos… vimos muitas “cholas” fazendo isso, no meio da rua, como se fosse algo suuuuper normal (o que pra eles é, na verdade!).. eca!

  • June 8, 2017 at 2:19 pm
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    Que interessante o post de vocês. Não conheço a Bolívia e meu sonho é conhecer o Salar!! Deve ser muito incrível mesmo…

  • June 9, 2017 at 1:20 am
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    Que aventura, melhor.. quantas aventuras. Mas imagino o quanto tiveram que se segurar para não desligar a TV, 16h o mesmo DVD é tortura kkk
    Sou louca para conhecer o Salar.

  • June 9, 2017 at 1:57 pm
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    Que show esta viagem! Tenho muita vontade de fazer, até porque estou ali, do lado da Bolívia. Mas ainda não rolou. Quem sabe ano que vem!

  • June 11, 2017 at 1:15 am
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    Muito legal seu post! Que aventura rs Ainda tenho dúvidas se quero conhecer ou não, mas o Salar de Uyuni não sai da minha cabeça rs

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